Palavras bem-ditas

“…as coisas sublimes são, muitas vezes, as menos compreendidas…” - Victor Hugo

sábado, 26 de junho de 2010

UMA PEÇA DE TEATRO


Agora mesmo, acabei de assistir a minissérie Capitu, baseada no livro de Machado de Assis, Dom Casmurro. Boas produções. Tanto a produção moderna, quanto o clássico livro, não são achados que se encontram em qualquer esquina, não. Porém, depois de assistir e ficar encantado – apesar de algumas discordâncias, como o aspecto meio triste e sombrio que a adaptação transmite... – veio-me à memória, uma frase de Charles Chaplin: “Sorria, chore, dance e viva. Pois um dia a cena se encerrará, e talvez não haja nenhum aplauso.” Pensando bem, a vida é uma peça de teatro; ou, o teatro é uma boa forma de pregar uma peça na vida.

Cada dia, somos atores e atrizes de cenas pitorescas. Alguns momentos são de extremo humor; outros, nem tanto, ganhariam inúmeros prêmios pelo drama que faria qualquer um derramar lágrimas e choros de emoção; e, também, há aqueles instantes que causariam revolta em qualquer expectador por causa do papel de vilões que, infelizmente, demos lugar. Não importando o gênero predominante, se humor, drama, ação ou western, cenas e cenas vão formando o espetáculo da vida. Porém, como participamos desse drama?

Alguns se tornam meros expectadores dos espetáculos dos outros. Sabem muito bem bater palmas. Possuem em seus lábios palavras motivacionais que até mortos ressuscitam! Em cada palavra dita, conseguem, com maestria, orientar e aconselhar todos ao redor. Contudo, não vivem os próprios atos; vivem, sim, o espetáculos de outros. E, quando não há outros para se fixarem, percebem a fraqueza das suas existências e, desesperadamente, clamam para que um novo espetáculo faça esquecê-los dos próprios dilemas. Meros expectadores da existência, assim vão vivendo. E, o tempo, como sempre, vai passando. Se questionados sobre o que tem feito, conseguem, de forma enciclopédica, narrar todo o histórico de décadas e décadas de existências, de existências do mundo, dos conhecidos e dos desconhecidos. Entretanto, quanto as suas próprias epopéias, somente o silêncio cerra seus lábios. Assim, são os expectadores de espetáculos.

Outros se tornam donos de palcos. Talvez se fôssemos narrar com detalhe esses indivíduos precisaríamos reservar um texto exclusivo para tais, pois, para eles, não há espaço para qualquer outra pessoa. Memorizam seus textos com rapidez e qualidade, representam com perfeição seus papéis, arrancam aplausos e mais celebrações da platéia. Entretanto, somente sabem fazer solos. Duetos, terceto s ou coros: nunca. Vivem o palco para si. Voltam-se para si mesmos e nunca para o próximo. Entendem o teatro da vida como palcos unicamente das próprias existências. Acredito, sinceramente, que os donos de palcos duvidam inclusive que o centro do sistema solar seja o sol, pois, na verdade, aos ventos prega que tudo deve gerar em torno de deles mesmos. Porém, o companheiro tempo não dá trégua para ninguém. Quando muitos atos e cenas já se sucederam, a platéia enjoa dos solos e dos desempenhos individuais. Cessam as palmas e as ovações. No silêncio, os donos de palcos caem em si. Descobrem que o teatro da vida não foi feito para ficar nas mãos de poucos mas para ser compartilhado por todos. Porém, frustrações vão se sucedendo, até que uma platéia nova é encontrada. Então, o monopólio dos palcos retorna. Aplausos e celebrações motivam novamente os donos de palcos. E, assim, eles vão indo. Os ‘donos ‘ de palcos vão indo.

Ainda há os contra-regras dos palcos. São sujeitos extremamente empáticos e solidários. Vivem, durante todo o espetáculo, a correr de um lado para outro com listas e listas das necessidades dos outros. Socorrem a uns, trocam as vestes de outros, organizam espetáculos à beira do desfazimento. Suados carregam nas próprias costas os problemas de cenas e atos de atores e atrizes que se quer dão conta dos próprios erros. Mas os contra-regras sempre estão aí para corrigir e socorrer os espetáculos dos outros. Entretanto, essas louváveis figuras sempre convivem com uma carência enorme de atenção. Ajudam, na bondade, mas se preocupam em ganhar o cuidado e o amor do demais através dos bons cuidados. Ainda que sem maldade alguma, ou, melhor, ainda que sem dolo, os contra-regras vivem numa expectativa de ganharem a atenção dos participantes dos palcos como moeda de troca pela ajuda e socorro. Contudo, as ajudas vão e vem... os camarins vão lotando... o stress se acumula em cada espetáculo feito... os contra-regras ajudam, socorrem... até que: precisam de ajuda. Tristes e frustrados descobrem que acumularam muitas pessoas nas costas e, agora, cansados somente ouvem cobranças e reclamações aos ouvidos. Diante do quadro caótico, questionam todo o bem feito e todos os momentos de companheirismo que sustentaram inúmeros espetáculos por aí. Agora, cansados, por detrás das cortinas, clamam,calados, por um minuto de descanso ou gritam, mudos, por um ombro amigo que os sustentem. Contudo, apesar do cansaço e das frustrações, assim vão indo os contra-regras.

Entretanto, o teatro da existência sempre dá as suas oportunidades. Não há expectador que não tenha tido a oportunidade de estrelar; não há contra-regra que não viu oportunidade de descansar e não dono de palco que não tenha tido um momento para deixar de lado o egocentrismo. Contudo, o que nos falta é a coragem de mudar de papel. Sei que é difícil sair de uma posição cômoda e confortável. Porém, outro dia ouvi uma frase que me assustou, mas serviu como um agressivo despertamento: quem não muda, morre!

Mas acalme-se leitor, nada de desespero. Não vamos ser literais. A morte muita das vezes não vem na sua forma literal, física. Porém, tristemente, podemos encontrar mortos-vivos por aí. Pessoas cujos corações estão mortos para sentimentos, homens e mulheres que têm relacionamentos falecidos e não dão nem conta dessa triste situação. Jovens, que no auge do vigor da existência, não conseguem olhar para si mesmo e ver o potencial que possuem. São pessoas com sonhos perecidos, com projetos inacabados, com frustrações que se perpetuam no tempo. Desse modo, se não houve mudança, a morte é vivida no dia-a-dia.

Contudo, ‘há esperança para a árvore cuja raiz foi morta pela aridez e tem seu tronco caído pelo chão’. Acredito que o teatro da existência, com certeza, não permite um sucesso absoluto que se eternize num auge infinito. Não, até os grandes musicais da Broadway um dia são esquecidos! Porém, isso não implica em dizer que uma existência pífia e monótona é tudo o que temos para viver. Particularmente, não acredito e nem vivo isso. E – não posso deixar de mencionar – Deus não permitiu a minha e a sua existência para que venham ser frustradas em si mesmas. Há projetos para serem concretizados. Existem sonhos para serem vividos. E não falta espaço para ninguém: há um palco aí. Basta usá-lo. Então, como diz o presidente Lula, ‘companheiro e companheira’, vamos acordar para a vida! Assumamos nossos papéis e vivamos as responsabilidades dos nossos atos. Não com a obrigação de sobreviver, mas com a expectativa de viver o melhor.

Entretanto, porém, contudo, no entanto, não obstante, apesar disso, sempre há os que levantam os ‘se’. Mas e ‘se’ a cortina cair? E ‘se’ a platéia não aplaudir? E ‘se’ um dono de palco quiser roubar a cena? E ‘se’ eu for vaiado ou vaiada? E ‘se’ em vez de flores me jogarem o jarro? (!!!!!!) Calma. Calma. Relaxa. Viver é correr o risco de sofrer. Diante de tantos ‘se’, tenho um ‘se’ também: e ‘se’ você não viver a vida?

Não há nada pior que ver o tempo passar e, depois de décadas, olhar para traz e perceber que perdeu uma vida. Uma existência se foi. Mais um que passou pelo palco e se quer viu a cor da cortina. Mais uma que não teve coragem de olhar a platéia nos olhos. Mais um que nunca aceitou os papéis principais pois sempre tinha a desculpa de que não era capaz. Mais um no meio de uma multidão de expectadores.

Contudo, para ser enfático, repito, ‘há esperança para a árvore cuja raiz foi morta pela aridez e tem seu tronco caído pelo chão’.

Mudar dói, mas não mudar, é desperdiçar uma vida. Todo dia é dia de revermos nossas atitudes e, principalmente, mudarmos nosso jeito de pensar. Eita, seria bom se ocupássemos nossas cabeças com idéias motivadoras e perspectivas positivas da vida. É triste quando já determinamos a frustração dos nossos planos, quando já somos derrotados na linha de largada. Porém, racionamos: o amanhã é algo certo? É exato o desdobramento dos fatos? Na verdade, sequer sabemos com plena certeza se irá chover ou não. Mesmo com toda a trambolhada tecnológica, probabilidades e expectativas são criadas sobre o amanhã. Então, tudo gira em torno do ponto de vista que assumimos. Tudo gira em torno daquilo que esperamos. Tudo, na sua profundidade, é uma questão bem profunda, sendo redundante, de FÉ.

Então, companheira, companheiro e eu, cara metido a escritor, seja lá qual for o papel que exercemos até hoje – se expectador, se dono de palco, se contra-regra, se sequer assumimos um papel, se vendedor de pipocas na saída do espetáculo... – devemos nos questionar que papéis exerceremos no amanhã. Onde queremos estar daqui um ano? Nesse mesmo local do palco? Nesta mesma expectativa do hoje? Mudemos de figurino, mudemos de scripts, mudemos de papéis. Porém, sobretudo, mudemos de mentalidade.

Assim, mais uma vez, ‘há esperança para a árvore cuja raiz foi morta pela aridez e tem seu tronco caído pelo chão’. Seja lá quanto tempo a árvore caiu, mas se ainda é árvore, dá para consertar. Como já ouvi alguém dizendo: ‘Pau que nasce torto, só Deus endireita’...

Magdiel Pacheco Santos

22 de junho de 2010

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